Europa libera reciclagem química, mas debate global expõe limites ambientais do plástico
A reciclagem química do plástico, apresentada pelo setor como uma ferramenta para a descarbonização, recebeu na sexta-feira (6) sinal verde dos países da U...
A reciclagem química do plástico, apresentada pelo setor como uma ferramenta para a descarbonização, recebeu na sexta-feira (6) sinal verde dos países da União Europeia. O aval, porém, não encerra as controvérsias em torno da técnica, que segue sendo alvo de questionamentos por seus impactos ambientais, pelo alto consumo de energia e por um modelo econômico ainda incerto. Veja os vídeos que estão em alta no g1 A decisão europeia ocorre em um momento de crescimento contínuo da produção global de plásticos e de pressão política para ampliar a proporção de material reciclado em embalagens, especialmente garrafas plásticas, consideradas um dos principais vetores de poluição. O que os países europeus aprovaram Os 27 Estados-membros da União Europeia aprovaram na sexta-feira a inclusão do chamado reciclagem química no cálculo da proporção obrigatória de conteúdo reciclado em garrafas plásticas, além da metodologia usada para medir esse percentual. Atualmente, as garrafas devem conter pelo menos 25% de plástico reciclado. A meta sobe para 30% até 2030. A Comissão Europeia propôs que o plástico reciclado por vias químicas passe a contar para o cumprimento dessa exigência regulatória. Segundo a Comissão, trata-se de um passo inicial para estruturar regras comuns no bloco. “É uma primeira etapa importante para a definição de normas sobre reciclagem química em nível europeu”, afirmou a porta-voz do órgão, Anna-Kaisa Itkonen. O que é a reciclagem química do plástico A reciclagem química não é uma tecnologia única, mas um conjunto de processos. “Trata-se de um grupo de tecnologias que pode ser dividido em duas grandes famílias: a despolimerização e os processos térmicos”, explica Jean-Yves Daclin, diretor-geral da Plastics Europe na França, entidade que representa a indústria de plásticos e reúne empresas como BASF, Eastman, ExxonMobil, Ineos, LyondellBasell, Shell e TotalEnergies. A despolimerização consiste em quebrar as longas cadeias de polímeros que formam o plástico, usando, por exemplo, solventes químicos. O objetivo é retornar o material a seus componentes básicos, permitindo que ele seja reprocessado. No entanto, a maior parte dos resíduos plásticos não pode ser tratada dessa forma. Nesses casos, os recicladores recorrem à pirólise, um processo que submete o plástico a temperaturas muito elevadas para quebrar as moléculas. Esse tipo de reciclagem é intensivo em energia e envolve custos elevados. Ainda assim, passou a integrar o conjunto de soluções consideradas por autoridades públicas para enfrentar a poluição causada por embalagens plásticas. Na prática, porém, a produção por essas vias segue residual. “São tecnologias relativamente inovadoras, ainda em estágios iniciais de desenvolvimento”, afirma Daclin. Ele reconhece que “o modelo econômico ainda precisa ser construído” e que serão necessários anos antes que a atividade alcance volumes relevantes de produção. As críticas ao modelo Para críticos da reciclagem química, o foco nessa tecnologia desvia o debate central. Ao enfatizar soluções tecnológicas, a indústria evita discutir a redução da produção e do consumo de plástico, considerada por ambientalistas a principal estratégia para limitar os impactos ambientais do material. “Falar de reciclagem química permite deslocar o debate, em vez de enfrentar a questão da queda da produção e do consumo de plástico, que é o verdadeiro desafio”, analisa uma fonte da Comissão Europeia, sob condição de anonimato. A ONG Zero Waste sustenta que o processo é poluente, altamente consumidor de energia e reforça o “mito” da reciclagem infinita do plástico. Segundo a organização, o material se degrada ao longo de seu ciclo de vida, o que torna inevitável a incorporação de plástico virgem para que ele continue cumprindo suas funções. O peso real do plástico reciclado A produção mundial de plástico segue em expansão. Em 2024, alcançou 430,9 milhões de toneladas de plástico virgem, um aumento de 4% em relação ao ano anterior. Desse total, o chamado plástico “circular” — que inclui o reciclado mecanicamente, o produzido a partir de biomassa, o reciclado quimicamente e o obtido por captura de carbono — representa apenas 10% da produção global. Mais da metade das matérias-primas plásticas provenientes de reciclagem, tanto mecânica quanto química, tem origem na Ásia, que responde por 54,9% desse volume. A China sozinha concentra 30,3%. A região asiática também domina a produção global de plásticos: 57,2% do total mundial é fabricado na Ásia, sendo 34,5% apenas na China.